NOTÍCIAS

O Estado de S.Paulo – Artigo: Multiparentalidade: a família além do laço sanguíneo – Por Danielle Corrêa
13 DE SETEMBRO DE 2021


A multiparentalidade e o seu reconhecimento trouxe grandes avanços no Direito de Família, pois amparou aqueles que não se vinculam à figura familiar com base apenas na consanguinidade, tendo em vista que hoje os tribunais já reconhecem o conceito de família no sentido latu sensu, ou seja, vinculado por afinidade. De forma simplória, a multiparentalidade é o instituto que rege o ato de registrar um filho por mais de um pai ou mais de uma mãe (pais socioafetivos), podendo, inclusive, ser juntamente com os pais biológicos ou não.

Constantemente, lidamos com os casos de filiação socioafetiva, por exemplo, crianças que são criadas com padrastos ou madrastas. Inclusive, em algumas dessas situações, a criança acaba criando um vínculo maior com essas figuras do que com os pais biológicos, uma vez que o contato, geralmente, é mais habitual.

A multiparentalidade nasceu com a necessidade de regular essa parentalidade socioafetiva, embora esse instituto já apareça no Código Civil: “o parentesco é natural ou civil, conforme resulte de consanguinidade ou outra origem”. Quando o texto de lei aduz “outra origem” está se referindo às adoções ou a socioafetividade.

Até mesmo o Conselho de Justiça Federal, em seu enunciado 256, disparou o fato de que a posse do estado de filho, mesmo que não biológico, constitui modalidade de parentesco civil, de forma a não haver distinção entre filhos biológicos, adotivos ou a filiação socioafetiva.

Já o Supremo Tribunal Federal, em 2016, entendeu que o reconhecimento da filiação socioafetiva não exime a responsabilidade do pai/ mãe biológico. Essa discussão teve origem no Recurso Extraordinário número 898.060-SC, em que por maioria dos votos negou provimento ao recurso, no sentido de que o pai biológico, ora recorrente, tinha obrigações legais, independentemente do vínculo havido com o pai socioafetivo. O Ministro Luiz Fux, entendeu que devem ser acolhidos pela legislação e que não há impedimento do reconhecimento simultâneo de ambas as formas de paternidade, caso o filho tenha interesse na multiparentalidade e parentalidade socioafetiva.

Como qualquer outra inovação no ordenamento jurídico, o reconhecimento da multiparentalidade traz implicações em algumas áreas, tais como: direito sucessório, registro civil, direito ao recebimento de alimentos e outros. Quando se trata do registro civil, o CNJ no provimento número 63/2007 aduz em seu artigo 10, §1º, que o reconhecimento da filiação socioafetiva só poderá ser desconstituído por ação judicial própria, uma vez que possui natureza irrevogável.

Seja filho biológico ou socioafetivo, terá direito ao recebimento de pensão, tendo em vista que não pode haver distinção entre os filhos, conforme elencado no artigo 227, §6º, da Constituição Federal. Além disso, os filhos socioafetivos terão direito à herança, pois aplica-se o entendimento acima, que não pode haver distinção entre os filhos. Por fim, é importante mencionar que haverá definição de guarda no caso de dissolução de união estável ou divórcio.

Ou seja, tanto o filho biológico quanto o filho socioafetivo terão direitos e garantias devidamente previstas em lei e, quando essa for ausente, o próprio STF terá discernimento para complementar um entendimento não pacificado. Contudo, é importante destacar que sempre será levado em consideração a vontade do filho, pois o Direito de Família é um instituto que visa a segurança da família como um todo, e o Estado não pode intervir nessa relação.

Em suma, os pais socioafetivos terão a responsabilidade no que tange a criação e educação dos filhos, ou seja, todos os atos da vida civil daquela criança também será de responsabilidade desses. Portanto, a multiparentalidade é diferente da adoção, pois este primeiro instituto não substitui a figura dos pais biológicos, tendo em vista que a relação será concomitante.

*Danielle Corrêa é advogada desde 2007, com pós-graduação em Direito de Família e Sucessões. Membro da OAB-SP e do Instituto Brasileiro de Direito de Família (IBDFAM)

Fonte: O Estado de S.Paulo

Outras Notícias

Anoreg RS

Decreto n. 11.995/2024 institui o Programa Terra da Gente e dispõe sobre a incorporação de imóveis rurais no âmbito da Política Nacional de Reforma Agrária
17 de abril de 2024

Foi publicado no Diário Oficial da União (D.O.U. de 16/04/2024, Edição 73, Seção 1, p. 1), o Decreto n....


Anoreg RS

Anoreg/RS e Fórum de Presidentes promovem reunião mensal para atualização de pautas da categoria
17 de abril de 2024

Coordenado pelo presidente da Anoreg/RS, Cláudio Nunes Grecco, encontro online aconteceu nesta quarta-feira (17/04).


Anoreg RS

Dificuldade para registro da transferência do imóvel justifica emprego de usucapião
16 de abril de 2024

A ação de usucapião pode, excepcionalmente, ser utilizada para regularização de imóvel nos casos de...


Anoreg RS

Receita Federal do Brasil divulga Instrução Normativa nº 2186/24 sobre apresentação da DOI por meio de plataforma web
16 de abril de 2024

Dispõe sobre a Declaração sobre Operações Imobiliárias (DOI) e define regras para a sua apresentação.


Anoreg RS

Cônjuge não responde por dívida trabalhista contraída antes do casamento
15 de abril de 2024

Para o colegiado, não se verifica dívida contraída em benefício do núcleo familiar, que obrigaria a...


Anoreg RS

Nota de pesar – Anoreg/RS e Fórum de Presidentes comunicam o falecimento do Registrador Paulo Heinrich
13 de abril de 2024

Um colega dedicado, que doou seu tempo para sedimentar a história da atividade registral gaúcha, deixando em...


Anoreg RS

Seguem abertas inscrições para curso sobre comunicações dos cartórios ao Coaf
12 de abril de 2024

O curso de capacitação sobre a atuação dos cartórios extrajudiciais no combate à lavagem de dinheiro segue com...


Anoreg RS

Artigo – A vida secreta dos livros de registro – Seção “Tudo é Verdade, e dou fé” – Sérgio Jacomino
12 de abril de 2024

Quando ingressei na vida cartorária, há mais de meio século, conheci um velho escrevente que era chamado de Chico...


Anoreg RS

Artigo – Certidão de nascimento para “pet´s” – Animais de estimação é possivel?
12 de abril de 2024

Pets ganham status de membros familiares, refletindo-se em mercado bilionário. Proposta de dar sobrenome e...


Anoreg RS

Aprovada Frente Parlamentar do Serviço Notarial e Registral
11 de abril de 2024

Aprovada Frente Parlamentar do Serviço Notarial e Registral